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sexta-feira, 7 de agosto de 2026 · Edição digital

EconomiaAnálise

Real x bitcoin: quem existirá daqui a 10 anos?

O real é a oitava moeda brasileira desde 1942, e as sete anteriores viveram em média pouco mais de sete anos. Chegou aos 32 anos com um décimo do valor com que nasceu — e a aritmética que matou as outras sete continua rodando.

Por Rui Bastos

11 min de leitura
Real x bitcoin: quem existirá daqui a 10 anos?

Crédito: Arte / Rede Eixo

Análise. Os números são de fontes oficiais e de mercado, todos linkados. As divergências entre os especialistas citados estão registradas.

Na primeira abertura de mercado do Plano Real, em 4 de julho de 1994, o dólar foi cotado a R$ 0,94. A moeda brasileira nasceu valendo mais que a americana. Trinta e dois anos depois, a taxa Ptax do Banco Central fechou o dia 20 de julho de 2026 em R$ 5,0894.

O Plano Real foi uma vitória, e não é honesto fingir o contrário: matou uma hiperinflação que corroía o salário antes do fim do mês. Mas a comemoração parou na primeira página e nunca chegou à segunda — a que mostra o que aconteceu com a moeda depois que ela deixou de queimar e passou apenas a derreter.

A conta que ninguém faz

Em março de 2026, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, refez essa conta com a taxa Ptax do Banco Central. Desde julho de 1994, a inflação acumulada no Brasil pelo IPCA foi de 775%; nos Estados Unidos, de 122%.

Partindo da paridade de um por um do lançamento, ele calculou o seguinte: se o dólar tivesse acompanhado apenas a inflação americana, valeria R$ 2,22; se tivesse acompanhado a brasileira, valeria R$ 8,74. A moeda brasileira perdeu cerca de seis vezes mais poder de compra que a americana: sobrou pouco mais de 11% do poder de compra de 1994. A nota de R$ 100 da estreia do plano vale, em mercadoria, cerca de R$ 11. E o real apanhou numa era de dólar fraco — de uma moeda que ela própria perdeu 55% do valor no período.

A régua errada

Aqui é preciso separar duas coisas que o debate público mistura: inflação e índice de preço.

O IPCA mede preços na ponta — pão, aluguel, gasolina. É termômetro, não doença. Para a escola austríaca de economia, tradição de Mises e Hayek, inflação é o aumento da quantidade de dinheiro em circulação. O preço subindo é sintoma; a expansão monetária é a causa.

Os números estão publicados no Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central, e precisam ser lidos com cuidado, porque não dizem a mesma coisa. Em maio de 2026, a base monetária — o dinheiro que o BC emite diretamente, papel-moeda mais reservas bancárias — somava R$ 427,8 bilhões e havia encolhido 5,4% em doze meses (série 1788). No mesmo período, o M2, medida ampla que inclui poupança e títulos de instituições depositárias, chegou a R$ 7,6 trilhões e cresceu 10,8% (série 27810).

A distinção derruba a simplificação mais comum do debate: não é a impressora do Banco Central que está rodando — ela, na verdade, recuou. O dinheiro novo nasce da dívida pública e do crédito bancário, não da máquina de imprimir. O Estado não precisa emitir papel para expandir a moeda. Muda quem aperta o botão, não o efeito sobre quem poupa.

E é aí que a conta do poupador desmorona. Vale medir pelo melhor caso possível, não pelo pior: o Tesouro Selic, o investimento mais seguro do país. Ele paga a Selic, hoje em 14,25% ao ano, mas o imposto entra antes do investidor. Na alíquota mínima, de 15%, exigida para quem segura o papel por mais de dois anos, sobram cerca de 12,1%1,3 ponto acima da expansão do M2. Em prazos curtos, com alíquota de 22,5%, sobram 11%, e a diferença cai para 0,2 ponto — menos do que a taxa de custódia cobrada pela B3, ou seja, retorno real negativo.

Esse é o teto. O brasileiro que faz tudo certo — trabalha, poupa, escolhe o ativo mais seguro que existe e ainda paga imposto sobre o rendimento — no melhor cenário empata com a máquina de expansão monetária. Todo o resto do mercado, que carrega mais risco, mais taxa ou menos prazo, corre abaixo dessa linha. Não existe, na prática, retorno real relevante: existe a ilusão de rendimento produzida por uma régua que mede a coisa errada.

O contraditório precisa ser dito com todas as letras: pela régua oficial do IPCA, que marcou 4,64% em doze meses até junho, o juro real brasileiro está positivo e altíssimo, em torno de 9,2% ao ano, dos maiores do mundo. Para o Banco Central, é justamente esse juro que segura os preços. Duas réguas, conclusões opostas — e qual delas descreve melhor o que aconteceu com o patrimônio do brasileiro em trinta anos é a discussão inteira.

O juro alto não caiu do céu: é o que o Estado paga para se financiar. A dívida bruta chegou a 81,1% do PIB em maio de 2026, e a despesa com juros dos últimos doze meses somou R$ 1,11 trilhão — 8,48% de tudo que o país produz, que não constrói estrada, hospital nem escola. É essa dívida, rolada indefinidamente e carregada pelo sistema bancário, que reaparece do outro lado do balanço como o dinheiro novo do M2.

O resultado chega ao bolso: medido em dólares, o PIB per capita do brasileiro é hoje quase metade do de 2011, atrás de China, México, Chile e Uruguai. Em Mato Grosso há uma exceção instrutiva: o produtor vende soja e carne em dólar e paga custo em real, e é essa assimetria que sustenta a liderança do estado na balança comercial. Sua renda já está, na prática, protegida de uma moeda que derrete. Quem recebe salário em real não tem essa saída.

O outro lado também sangra

Nada disso torna o bitcoin um porto seguro, e omitir o presente seria propaganda. Ele bateu recorde de US$ 126.198 em 6 de outubro de 2025 e valia US$ 64.199 na manhã de 20 de julho de 2026queda de 49%. O ouro fez o mesmo caminho: saiu de um recorde de quase US$ 5.600, no fim de janeiro, para US$ 4.01028% abaixo —, no pior trimestre em 13 anos, com perda de cerca de 15% entre abril e junho. A causa é comum aos dois: juro real alto nos Estados Unidos e dólar forte punem tudo que não paga juro.

O tombo tem nome e sobrenome nos balanços. A americana Strategy, de Michael Saylor, maior tesouraria corporativa de bitcoin do mundo, tem 843.775 bitcoins. As duas principais bases de dados do setor divergem sobre o custo médio de compra — o Bitbo aponta US$ 66.384 por moeda, enquanto os números do CoinGecko sugerem algo próximo de US$ 75 mil. Por qualquer das duas contas, a maior compradora do mundo está hoje abaixo do próprio custo. Vendeu bitcoin duas vezes em 2026 para pagar dividendos, e em junho o mercado passou a avaliá-la por menos do que valem suas reservas. No Brasil, a Méliuz, primeira empresa listada a adotar a estratégia, comprou a um custo médio de US$ 103.313 e registrou R$ 76 milhões de prejuízo contábil no primeiro trimestre.

Só que o tombo precisa ser lido pelo que ele é. A queda muda o preço, não o desenho. Durante todo o mergulho, a rede seguiu produzindo um bloco a cada dez minutos, a emissão continuou nos mesmos 0,83% ao ano e o teto de 21 milhões não se moveu um dígito. O que caiu foi a cotação em dólar — justamente a régua da moeda que o projeto se propôs a contestar. E o propósito nunca foi ambíguo: no primeiro bloco, em 3 de janeiro de 2009, Satoshi Nakamoto gravou a manchete do jornal The Times daquele dia — “Chanceler do Tesouro à beira de um segundo resgate aos bancos”, uma referência ao ministro britânico das Finanças e ao socorro bilionário ao sistema financeiro. Ele não nasceu para subir de preço; nasceu para disputar quem tem o direito de emitir. Esse projeto segue de pé, e é isso que a volatilidade não responde — nem a favor, nem contra.

Foi no meio da queda, aliás, que apareceu seu uso mais eloquente. Em maio de 2026, o Irã — sancionado e fora do SWIFT há décadas — lançou o Hormuz Safe, seguro marítimo liquidado em bitcoin para navios no Estreito de Ormuz. É o cenário descrito pelo major Jason Lowery, da Força Espacial americana, na tese Softwar, defendida no MIT em 2023: o bitcoin não como meio de pagamento, mas como tecnologia de projeção de poder. Pouco depois de publicada, a tese sumiu das livrarias e da biblioteca do MIT — “recebi ordem de tirar o SOFTWAR do ar”, escreveu Lowery, sem que jamais houvesse explicação oficial. A tese é contestada: o desenvolvedor Jameson Lopp chamou-a de “um enorme non sequitur”.

Os próprios defensores divergem. Fernando Ulrich, economista que publicou em 2014 o primeiro livro sobre bitcoin no Brasil e que entre 2019 e 2021 chegou a integrar o conselho da Casa da Moeda, defende a “concorrência no campo da moeda”, mas afirma que “ainda é cedo para dizer que o bitcoin é uma proteção contra inflação” — algo que “pode levar 50, 100, 500 anos”. Já Renato Amoedo, o “Trezoitão”, perito da Polícia Civil da Bahia que virou um dos maiores comunicadores da direita brasileira, prega a saída individual pela autocustódia — e também erra: previu que o Drex substituiria o dinheiro físico até 2027, e o Banco Central desligou a plataforma do projeto por problemas de privacidade e custo de transação.

Quem sobrevive a dez anos

Recebi há pouco a visita de um cunhado, auditor do Tribunal de Contas da União. Entre um café e outro, ele riu do bitcoin. Tinha caído pela metade, e para ele o assunto estava encerrado: mais uma aposta que deu errado.

Perguntei, com dúvida genuína, o que exatamente ele considerava frágil no desenho da coisa. A resposta descrevia uma criptomoeda qualquer — não havia ali o teto de 21 milhões, nem a emissão que cai pela metade a cada quatro anos, nem a diferença entre o preço e o protocolo. E não era desatenção: é um profissional competente, que conhece o Estado brasileiro por dentro como poucos. Tanto que, sobre o outro lado da conversa, estava rigorosamente certo. Descreveu com precisão a destruição de riqueza que trinta anos de real produziram e sabe de cor o tamanho da conta de juros.

Faltava a ponte. Ele tinha o diagnóstico inteiro na mão e não havia feito a pergunta seguinte: se a moeda que ele fiscaliza destrói riqueza por desenho, o que alguém construiria para escapar disso? A resposta a essa pergunta é a gênese do bitcoin — e é também a razão desta análise. A síntese que faltava naquela mesa começa com um dado.

O real é a oitava moeda brasileira desde 1942. Antes dele vieram o cruzeiro, o cruzeiro novo, o cruzeiro de novo, o cruzado, o cruzado novo, o cruzeiro pela terceira vez e o cruzeiro real — sete trocas em 52 anos, segundo o registro oficial do Senado. Cada uma dessas moedas durou, em média, pouco mais de sete anos. O real tem 32: não é a regra da história monetária do país, é a exceção mais duradoura dela.

E é preciso entender como essas moedas morreram, porque nenhuma delas desapareceu num estouro. Elas foram trocadas. Cortaram-se zeros, mudou-se o nome, e o que estava poupado na anterior virou pó. Foi assim sete vezes, sempre pelo mesmo motivo: a conta chegou. Hoje a dívida está em 81% do PIB, os juros consomem R$ 1,11 trilhão por ano e a moeda ampla cresce 10,8% enquanto o país produz quase nada a mais. É a mesma aritmética que produziu as sete trocas anteriores.

Por isso esta análise não vai fugir da pergunta do título. O mais provável é que o real, tal como o conhecemos, não chegue inteiro a 2036. Não porque um concorrente digital o derrube, mas porque o Brasil já fez isso sete vezes com suas próprias moedas, e nada na trajetória fiscal atual sugere que desta vez seja diferente. Do outro lado, o bitcoin tem 17 anos, emite 0,83% ao ano com teto de 21 milhões de unidades, e já atravessou quedas de 93% em 2011, 86% em 2015 e 84% em 2018 sem deixar de existir — volatilidade não é o mesmo risco que substituição. Um pode perder metade do valor num semestre e continuar sendo o que é; o outro cai devagar, de forma mansa, e um dia amanhece com outro nome.

O que não é previsão é o retrovisor: oito moedas em 84 anos, quase 90% do poder de compra evaporado em uma geração, R$ 1,11 trilhão por ano só de juros e uma renda por habitante de volta ao patamar de 2011. Esse empobrecimento não foi azar, nem safra ruim, nem crise externa. Foi o resultado aritmético de uma escolha institucional que nunca foi submetida a voto: quem tem o direito de criar dinheiro.

Os números

  • Dólar: R$ 0,94 na estreia do Plano Real (4/7/1994) → R$ 5,0894 em 20/7/2026 (Ptax/BCB).
  • IPCA acumulado desde 1994: 775%. CPI americano: 122% (Austin Rating/Poder360).
  • Dólar corrigido pela inflação dos EUA: R$ 2,22. Pela do Brasil: R$ 8,74.
  • Base monetária: R$ 427,8 bi, −5,4% em 12 meses. M2: R$ 7,6 tri, +10,8% (maio/2026, séries 1788 e 27810 do SGS/BCB).
  • IPCA 12 meses: 4,64% (IBGE). Selic: 14,25% (BCB).
  • Tesouro Selic: ~12,1% líquidos no melhor caso, 1,3 ponto acima do M2 — e 0,2 ponto em prazos curtos.
  • Dívida bruta: 81,1% do PIB. Juros em 12 meses: R$ 1,11 trilhão.
  • Bitcoin: US$ 64.199 em 20/7/2026, 49% abaixo do recorde de US$ 126.198 (6/10/2025). Emissão de 0,83% ao ano.
  • Ouro: US$ 4.010 em 20/7/2026, 28% abaixo do recorde de quase US$ 5.600 (fim de janeiro de 2026).
  • Moedas brasileiras desde 1942: 8 (Senado). Vida média das 7 anteriores ao real: ~7,4 anos.
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Repórter de política e economia da Rede Eixo. Acompanha o poder público e o agronegócio.