Opinião. Coluna assinada por Rui Bastos. Os números são do Banco Central e as citações saíram do livro de Mises — tudo linkado, um a um, para você conferir. As conclusões são minhas.
Você trabalha o mês inteiro. Guarda um dinheiro. Um ano depois, aquele mesmo dinheiro compra menos.
Não é impressão sua. E não é culpa do dono do mercado.
O IPCA mede preço. Não mede inflação.
O IPCA é uma lista de compras. O governo escolhe um tanto de produtos — arroz, ônibus, aluguel, remédio —, anota quanto custam e compara com o mês passado.
Só que preço sobe e desce por um monte de motivo que não tem nada a ver com dinheiro. Choveu demais, o tomate sobe. Veio safra boa, o feijão cai. Deu problema no porto lá fora, o trigo sobe. Faltou chuva, a conta de luz sobe.
Isso é lavoura. É clima. É frete. É a vida da cadeia produtiva.
Quando o IPCA sobe num mês e cai no outro, quase sempre não é a moeda que mudou. É o tomate.
Por isso ficar olhando o preço do supermercado de um mês para o outro não te diz quase nada sobre inflação. Te diz sobre a safra.
Então o que é inflação?
Ludwig von Mises explicou isso em 1959, na quarta das seis lições que deu em Buenos Aires, num português que qualquer um entende:
“Quando, em nossos dias, um governo aumenta a quantidade de papel-moeda, a consequência é a queda progressiva do poder de compra da unidade monetária e a correspondente elevação dos preços. A isso se chama de inflação.”
E ele reclama, no parágrafo seguinte, exatamente do erro que a gente comete aqui todo dia: que muita gente prefere ver a causa da inflação “não no aumento da quantidade de dinheiro, mas na elevação dos preços”.
Inflação é o governo fazer dinheiro. O preço subindo é o efeito. Quem olha só para o preço está olhando a fumaça e ignorando o fogo.
Onde a inflação aparece de verdade
Repare no que não muda.
Um carro usado, dez anos de idade, dobrou de preço. Ele não ficou mais novo. Não ganhou motor melhor. Continua o mesmo carro, mais velho.
Uma casa velha, na mesma rua de sempre, dobrou de preço. Ninguém reformou nada.
Um alqueire de terra. A terra é a mesma terra.
O carro não mudou. A casa não mudou. A terra não mudou. O que mudou foi o dinheiro.
É aí que a inflação aparece sem disfarce — nas coisas que não estragam, não somem e não dependem de safra.
O que o Banco Central mostra
Desde o começo do Plano Real, em 1994, até junho deste ano:
- O dinheiro em circulação — a base monetária restrita — cresceu 57 vezes.
- O dinheiro do sistema inteiro — a base monetária ampliada — cresceu 150 vezes.
- Os preços, pelo IPCA, subiram 8,9 vezes (792,6%).
Olhe de novo para esses três números. O dinheiro se multiplicou por 150. O índice oficial acusou 9.
E o resultado no seu bolso, calculado sobre a série do próprio Banco Central:
R$ 1,00 de 1994 compra hoje o equivalente a 11 centavos. Hoje você precisa de R$ 8,93 para comprar o que R$ 1,00 comprava quando o Real nasceu.
Some 89% do valor. Ninguém votou nisso. Ninguém assinou nada.
O imposto que ninguém votou
Mises também explicou por que governo nenhum resiste:
“O governo pode considerar que, como método de arrecadar fundos, a inflação é melhor que a tributação: esta é sempre impopular e de difícil execução.”
Aumentar imposto dá briga no Congresso, sai no jornal, custa voto. Fazer dinheiro não dá briga com ninguém. É silencioso. E cobra de todo mundo ao mesmo tempo, sem precisar de lei.
Enquanto isso, a conta pública piora. A dívida bruta do governo era 56% do que o país produz em dezembro de 2014. Em junho deste ano, chegou a 82%.
E o remédio que se usa contra o sintoma custa caro: a meta da Selic está em 14,25% ao ano, enquanto o IPCA acumulado em doze meses até junho foi de 4,64%.
Parece bom para quem tem dinheiro guardado. Não é.
Quem aplica não leva esses 14%. Primeiro a inflação come um pedaço. Depois vem o imposto de renda — e ele é cobrado sobre o ganho de papel, sobre o número cheio, não sobre o que sobrou depois de descontada a inflação. Você paga imposto sobre uma valorização que, em boa parte, nunca existiu de verdade.
No fim, o poupador não enriquece. Ele apenas perde mais devagar. Segurar dinheiro no Brasil não é investir: é tentar não afundar.
Então quem ganha?
Se o trabalhador perde e o poupador só se defende, alguém está do outro lado da conta. Mises respondeu isso em 1959, e a resposta não envelheceu um dia:
“Os grupos que recebem o novo dinheiro em primeiro lugar ganham uma vantagem temporal. (…) Esses grupos passam a ocupar uma posição privilegiada. Auferem maiores lucros e ganham maiores salários: seus negócios prosperam. Por quê? Porque foram os primeiros a receber o dinheiro adicional.”
E completa, sobre quem chega por último: essas pessoas “são obrigadas a pagar preços mais altos que os anteriores”, enquanto “sua renda permanece a mesma, ou não aumenta na mesma proporção dos preços”.
Está tudo dito. O dinheiro novo não cai igual na cabeça de todo mundo. Ele entra por uma porta. E quem está encostado nessa porta compra ainda pelo preço velho.
Quem está encostado na porta? Quem pega dinheiro público a juro camarada. A empresa grande com linha de crédito subsidiada, que toma emprestado a uma taxa que o dono da padaria nunca vai ver. O setor organizado, com escritório em Brasília e telefone de ministro.
Esses não sofrem com a inflação. Esses vivem dela.
Mises foi direto: além dos grupos favorecidos, “há outros que a exploram diretamente”.
Enquanto isso, o sujeito que levanta às cinco da manhã recebe o dinheiro por último — quando o preço já subiu.
O castelo de areia
Junte as peças e o desenho aparece.
O Estado gasta mais do que arrecada. Não consegue cobrar tudo em imposto, porque imposto dói e aparece. Então completa a conta de um jeito que não aparece: emitindo, se endividando, empurrando. E o valor do seu dinheiro vai encolhendo ano após ano, sem que ninguém precise anunciar.
O trabalhador acha que está guardando dinheiro. Na verdade está segurando areia.
Na minha leitura, o Plano Real não é um plano de estabilidade. É uma máquina de transferir riqueza — de quem trabalha e poupa para quem emite e para quem está encostado na porta por onde o dinheiro entra. E funciona devagar o suficiente para ninguém gritar.
Não é um roubo de uma vez. É uma sangria de trinta e dois anos.
O outro lado — e ele existe
Seria desonesto não dizer o seguinte.
O Real fez uma coisa enorme: acabou com a hiperinflação. Quem viveu os anos 80 sabe a diferença entre perder 89% em trinta e dois anos e perder isso em um mês. E a moeda está de pé há 32 anos — Mises dizia que toda inflação termina em colapso, e o colapso não veio.
Comparar quanto o dinheiro cresceu com quanto os preços subiram também não é conta de padaria. O país ficou maior nesse período, tem mais gente com conta em banco, mais crédito, mais empresa. Parte dessa multiplicação acompanha uma economia que cresceu.
Reconheço tudo isso. E mesmo reconhecendo, o número não muda: 89% do poder de compra sumiu. Isso não é opinião. É a série do Banco Central.
O que ninguém discute
O que me incomoda não é o erro. É o silêncio.
Discute-se o preço do arroz. Discute-se o valor da Selic. Discute-se quem vai ser o presidente do Banco Central.
Não se discute a origem: um Estado que gasta mais do que arrecada há décadas e financia a diferença corroendo, em silêncio, o dinheiro de quem trabalha.
Enquanto essa conversa não acontecer, seguimos construindo na areia. E areia não segura casa.
Repórter de política e economia da Rede Eixo. Acompanha o poder público e o agronegócio.

